o património cultural da povoação de
Brunhoso
A povoação de Brunhoso fica dentro do território da Terra de
Miranda. Até 1889 pertenceu à Arquidiocese de Braga e esteve sob a
protecção e vigilância do Vicariato de Moncorvo, que por si
pertencia à Arquidiocese de Braga.
Como todas as pessoas e povoações, Brunhoso possui um
património cultural que não é, de modo algum, dos mais pobres do
Concelho de Mogadouro.
Desde que conheci a povoação de Brunhoso, pelos anos de 1969,
despertou-me a curiosidade a traça arquitectónica da Igreja
Paroquial mais do que qualquer outro dos monumentos que fazem parte
do património da povoação.
Perguntei, mais tarde, ao saudoso Pe António Pina se sabia
alguma coisa sobre o templo e respondeu-me que a tradição oral dizia
que a igreja primitiva estava onde construíram o espaço do
cemitério.
Quando em 1986 comecei a investigação para a tese doutoral,
apareceram-me alguns documentos sobre Brunhoso, mas nada que falasse
sobre a igreja paroquial.
Mais tarde descobri uma Provisão da Rainha Dª Maria I, datada
de 5 de Julho de 1783, na qual consta que "os moradores do lugar
de Brunhoso me representaram terem feito as obras de que necessitava
a capela mor da igreja de São Lourenço do dito lugar, pertencente à
Comenda de Santa Maria a Velha de Mogadouro dessa Comarca (de
Miranda) para cuja obra tinham pedido emprestado a algumas
confrarias e que também necessitavam de um terno de damasco roxo e
outro branco com seus pluviais, um missal e um cálice, pedindo-me
fosse servida mandar-lhe satisfazer a importância que despenderam no
retábulo e dourado da dita capela mor e fazer os ornamentos que
requerem o que visto informações vossas por que consta terem feito a
referida obra e ser avaliado o retábulo em oitenta mil reis a
pintura e douramento em outros oitenta mil reis que tudo faz a
quantia de cento e sessenta mil reis e que e a Comenda é obrigada a
fazer para o que nada contribuiu a fábrica... "
Por esta
Provisão, conhecendo nós a igreja de Brunhoso e faltando mesmo mais documentos, somos levados a concluir
que o templo tem todas as características de uma obra nova e
diferente de todas as igrejas do Concelho de Mogadouro e mesmo de
toda a Terra de Miranda.
Somos ainda levados a afirmar que a igreja paroquial nunca
foi construída noutro local porque o retábulo que hoje se encontra
na capela mor foi realmente construído nos anos setenta ou
princípios dos anos OITENTA do século XVIII, à custa das confrarias
da igreja que, como diz a provisão citada, emprestaram dinheiro para
a sua elaboração, bem assim como para o seu douramento.
Por outro lado, ainda, temos que ver que este retábulo do
altar mor foi mesmo construído para esta capela mor, não se notando
nele qualquer acrescento ou adaptação, mas vemos que é uma peça
única e homogénea bem ao gosto rococó posterior aos anos sessenta do
século XVIII. O retábulo deve ter sido construído e dourado no final
da década de setenta -1778-79 ou nos primeiros anos da década de
oitenta -1781-82. Não costumavam demorar muito as obras de
entalhamento e douramento desde que elas fossem aprovadas pela Mesa
da Consciência e Ordens.
O templo na sua forma arquitectónica forma um belíssimo
conjunto de arte neoclássica com elementos escultóricos e
arquitectónicos do estilo Rocócó.
De qualquer modo, as paredes seguem o plano rectilíneo tão
usado nas nossas igrejas que marcam o uso e apego das nossas gentes
e instituições eclesiásticas e até civis do Nordeste Transmontano
daqueles tempos do século XVIII ao maneirismo e mesmo ao
classicismo. A forma arquitectónica maneirista da Igreja Paroquial
de Brunhoso só é quebrada pelos vãos das portas e janelas de
autêntica traça rococó ou rocaille. Confirmamos este facto pela
forma da porta principal que se abre no fundo da torre fachada (Figura
1). Poucas são as Igrejas do nosso Nordeste que apresentem
esta forma de portada com frontão recurvado coroado por um ático em
forma de chapéu, em uso a partir dos anos sessenta do século XVIII.
O arquitecto teve a boa iniciativa de esculpir ou mandar esculpir,
na dura pedra granítica, a grelha, símbolo iconográfico do martírio
de S. Lourenço, patrono e orago da Igreja e da povoação de Brunhoso.
Outro conjunto rococó belíssimo é a janela da capela mor,
aberta do lado sul da Igreja.
É um autêntico medalhão todo ele de formas curvas com os seus
festões pendurados lateralmente e na parte inferior da repisa da
janela, bem como as aletas ou volutas e a parte do dintel da mesma
janela todo de formas recurvadas, tudo e bem ao gosto do estilo que
confirma a homogeneidade arquitectónica do templo. Encontramos
janelas semelhantes a esta no solar dos Pimentéis, em Castelo Branco
(Figura 2).

Figura 1
É de salientar o contraste de sombra e luz que provocam estes
vãos, dentro da brancura das paredes rectilíneas quer na parte das
torres fachada quer na parte da parede sul do templo.
Não foge a este conjunto a porta lateral do lado sul com o
seu dintel curvo, assim como a parte superior da torre sineira, na
parte arquitectónica formada por duas meias aletas côncavas, sobre
as quais assenta o coroamento da torre com os sinos também por si
coroada por um frontão muito diluído, ornamentado lateralmente por
dois pequenos pináculos com suas esferas, os quais por si servem de
escabelo à belíssima e monolítica cruz barroca que coroa todo o
conjunto.
Chamam-nos a atenção as artísticas "pirâmides " ou pináculos
de traça finíssima que coroam os fortes cunhais laterais
apilastrados de forma toscana, que na sua aparente singeleza
aguentaram já tempestades e toda a espécie de intempéries que se
abateram sobre elas, desde há mais de duzentos anos.
São também dignos de apreço os quatro pináculos que coroam os
lados da capela mor e também os que coroam as pilastras da
sacristia. Menos finos os da capela mor, mais finos os da sacristia,
estes muito semelhantes aos da torres sineira, mas todos de traça
rococó.
Todo o conjunto arquitectónico, formado pelo templo em si,
pela sacristia e pelo compartimento de arrumos, forma um másculo e
harmonioso conjunto de volumes justapostos de sabor nédio clássico.
No interior do templo são de salientar como peças de valor
artístico os retábulos do altar mor e os dois retábulos laterais,
muito especialmente o de São Sebastião. Este santo mártir tinha na
povoação uma capela própria e a imagem que hoje se encontra na
igreja é bem barroca e veio, com certeza, do antigo templo. É dos
finais do século XVII ou princípios do século XVIII, de finíssima
traça escultórica, da qual desconhecemos o autor (Figura
5).
Ainda no campo arquitectónico é digno de apreço o púlpito que
em todo seu conjunto formado pela porta igual à da torre fachada,
bem como a parte do balcão com sua talha bem ao gosto
rocaille-rocócó e com sua mísula - estrado, apresenta um todo
homogéneo que não quebra a homogeneidade do estilo de todo o templo.
O mesmo acontece com a porta da sacristia construída, já no
ano de 1819, seguindo traça da portada da fachada. O facto de
aparecer a data de 1819 na porta da sacristia leva-nos a crer que
esta porta só foi construída nesta data, por falta de meios
materiais. Esta porta está elaborada com finura e majestade quer no
que respeita à parte arquitectónica, igual à porta da torre fachada,
quer escultórica, com sua cartela cronológica e com o motivo que
sobre a mesma está esculpido, bem como os festões laterais que
pendem do frontão.
Ainda, no que toca a escultura, além das imagens de São Pedro
e São Lourenço (Figura
4), orago da freguesia, é digna de relevo aquela ingénua
imagem de Santa Ana com a Virgem, obra do princípio século XVI, uma
autêntica preciosidade como peça de escultura antiga. É pena que não
esteja
colocada num local
mais artístico e mais conforme a beleza da imagem. O retábulo onde
se encontra é uma boa peça de carpintaria, mas não é uma peça de
talha (Figura 3).
Mas a peça de escultura de mais interesse pelo seu valor
artístico e pelo período a que pertence, é sem dúvida o Cristo
Crucificado que se pode ver na sacristia. É uma escultura de tipo
alongado de anatomia elegante. Esta figura de Cristo morto mostra
uma imagem doce da morte, a qual mais parece dormir tranquilamente
do que demonstrar o horror do sofrimento. A forma do pano de pureza
deste Cristo de Brunhoso é muito semelhante à do Cristo de Valbuena
de Duero na Província de Valladolid, atribuído ao escultor Francisco
de Giralte, o que indica os tipos de escultura da primeira metade do
século XVI, mas o tipo de cabeça parece já do segundo terço do
século XVI. Estaríamos assim frente a uma obra de influência
espanhola, da segunda metade do mesmo século.
Voltando atrás ao campo do património arquitectónico, a
povoação de Brunhoso possui duas capelas de boa arquitectura: a
Capela de Santa Bárbara, edificada lá no cimo da povoação e a Capela
de Nossa Senhora das Dores, edificada no fundo da mesma.
A Capela de Santa Bárbara foi edificada no local mais alto da
povoação com uma intenção bem definida (Figura
6). A gente do Nordeste e muito especialmente a gente da
Terra de Miranda, Mogadouro e Vimioso criou e mantém uma viva
devoção a Santa Bárbara, advogada contra as trovoadas, desde tempos
remotíssimos da Idade Média. Assim, em Brunhoso, não pode ser
estranho o facto de se ter edificado este pequeno templo, no ponto
mais alto da povoação, no século XVII, época, para mais, em que o
clima, na nossa região, foi muito desfavorável, porque, em tempo de
peste, fome e guerra, de trovoadas e maus anos agrícolas, a
intercessão de Santa Bárbara era fundamental e no alto da povoação,
a capelinha, com a sua padroeira dentro, passou a funcionar como
acrópole e baluarte contra trovoadas e tempestades. Está ali como
autêntico pára-raios.
No campo arquitectónico é um templo de forma basilical com um
másculo arco triunfal. Exteriormente apresenta-se com uma planta
rectilínea maneirista, sem nada de especial no campo da arte.
A imagem de Santa Bárbara é já da segunda metade do século
XVIII e podemos atribui-Ia ao escultor Jerónimo Caetano Fortuna,
natural de Castelo Branco, o qual tem mais esculturas semelhantes a
esta, no mesmo período. A imagem é de traça ainda barroca.
Na mesma capela e, sustentando a imagem de Santa Bárbara e a
de São Brás, há um retábulo que datamos do terceiro período Joanino,
isto é posterior a 1745. O tipo de colunas salomónicas que fazem
parte da estrutura do retábulo aparecem, mesmo, nos finais do século
XVIII.
A Capela de Nossa Senhora das Dores está, no fundo da
povoação, "esmagada" pelas casas. É do mesmo período da Capela de
Santa Bárbara e foi construída, como outras, por devoção e
necessidade que as pessoas sentiram, em tempos de doença, de dor e
sofrimento (Figura 7).

Figura 7
No que diz respeito ao património de artes menores, Brunhoso
possui no acervo religioso da sua Igreja Paroquial um belíssimo
turíbulo de prata, do princípio do século XVIII, um rico cálice, de
prata, mandado fazer, em Braga, por Provisão, acima citada, da
Rainha Dª Maria I, na qual consta "a necessidade dos ornamentos e
haver a dita fabrica a quantia líquida de catorze mil reis e
resposta do Procurador Geral das Ordens: Hey por bem mandeis pagar
aos ditos moradores pelo rendimento da Comenda a despesa que fez do
retábulo e douradura da capela mor. E outrosim mandeis fazer os
ORNAMENTOS e alfayas; bem entendido que estes primeiramente serão
pagos pelo dinheiro da Fábrica ainda que seja limitada a quantia e o
restante pelo rendimento da Comenda o que assim cumprireis ".
A ordem desta Provisão foi cumprida e no dia 3 de Setembro do
ano de 1783: foram pagos aos moradores de Brunhoso as despesas do
entalhamento e douramento do retábulo do altar mor.
"Foram testemunhas desta entrega o Reverendo Filipe
Martins, cura do mesmo lugar e o Pe Vitoriano Calejo”, da vila
de Mogadouro.
Em 22 de Abril de 1784, o mesmo Pe Filipe Martins, pároco de
Brunhoso, afirma que veio uma Provisão para compra de "hum cális
e de um missal que a Senhora DRaynha deu ordem para se comprar”.
Custou o cálice a quantia total de 26.290 reis.
Assim fala o documento:
Despesas do Cálice:
"Para o calis
todo de prata três marcos oitava e meia que comporta 19.350 reis
De feitio
dele-6.000 reis; Dourado por dentro -700 reis; De sagrar-240 reis;
Francisco José
Alves: Cestinha em que veio 30 reis; Carreto do calis 300 reis;
Missal- custo e
carreto dele -4.600 reis soma total do missal. - 4.930 reis
Soma do calis
supra - 26.290 reis
Soma total das
duas peças - 31.220 reis.
Abade Antonio
José Pimentel
Antes dos dois documentos acima citados consta o seguinte, no
documento em causa:
"Diz o juis da
Igreja, do lugar de Brunhoso e mais povo que elles suplicantes
alcançaraõ Provisão de Sua Majestade para poderem mandar fazer hum
calis, comprar hum missal 'a conta da Comenda do mesmo lugar (de
Santa Maria a Velha de Castelo Branco). Como tudo já está na Igreja
e do rol junto se mostra gastarem 31.220 querem que V.sa Mercê lhe
mande passar portaria para que o rendeiro da Comenda lhe pague a
quantia declarada
Pedem a V.sa
M.cê S.or Dr Provedor seja servido mandar-lha passar
E R (eceberá M(
ercê)
No dia 23 de Abril de 1784, Manuel Inácio de Morais, Escrivão
da Provedoria de Miranda, atesta, na vila de Mogadouro, que a
Provisão acima citada foi recebida pelo juiz da Igreja de Brunhoso
que na ocasião era João Martins.
Resta ainda dizer que em Brunhoso havia a capela do
Santíssimo Sacramento que tinha anexa uma confraria, na qual estavam
inscritos todos os habitantes da povoação. Em testamentos do século
XVIII encontramos este testemunho, assim como nos LIVROS DE VISITAS
E CAPÍTULOS de Brunhoso de 1630 a 1693. Esta capela desapareceu,
porque entrou em ruína e com a reconstrução da Igreja Paroquial
deixou de ter uso.
Cremos que a Capela do Santíssimo Sacramento estava no local
onde construíram o cemitério.
Há documentos que falam das Tulhas do pão reconstruídas pelo
mestre canteiro João de Morais, da vila de Izeda que no ano de 1796
arrematou sete tulhas do Concelho de Mogadouro pela quantia de
239.000 reis e pelo mestre carpinteiro António José Pacheco, da bem
próxima povoação de Remondes, o qual também arrematou a obra de
reconstrução, das mesmas sete tulhas, no que toca a carpintaria,
pela quantia de 130.000 reis.
Muito mais teríamos a dizer, mas, neste momento, não há
espaço para mais.
A história das tulhas ficará para outra vez, se Deus nos der
vida e saúde.
Fica este breve apontamento para que a gente de Brunhoso
conheça um pouco da história das obras que falam do zelo religioso e
do brio que nelas deixaram, bem expresso, os seus antepassados. Por
isso, fazemos um apelo aos habitantes desta povoação para que
estimem e promovam o seu Património Cultural e não esqueçam todos
aqueles que contribuíram para a sua edificação.
António Rodrigues Mourinho
Miranda do Douro, Novembro de 2005 |